𝐭𝐮𝐝𝐨 𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐭𝐞𝐧𝐡𝐨, 𝐩𝐨𝐮𝐜𝐨 𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐭𝐞𝐦𝐨

Quando o Sol não percebe o quão grande é

“Palavras são vazias e sentimentos são rasos, então escrevo. Quando escrevo, percebo novamente como as palavras são vazias e os sentimentos continuam rasos, mas agora estão em um papel insignificante e sem sentido.” — Já é a terceira folha que você amassa e joga no lixo, Miguel. - O rapaz se levantou e foi até uma das bolas de papel no lixo. — NÃO! - Miguel bradou abruptamente. - Não leia, Lucas, está horrível. Lucas deixou a bola de papel cair novamente. Miguel recostou sua cabeça em cima de sua escrivaninha e desenhava com seu dedo pelo papel em branco. Seus olhos haviam perdido o brilho algumas palavras atrás. — O que te assombra? — Hum? — O que te assombra, Miguel? Por que acha que está tão ruim? — Por onde começo? - Miguel levantou sua cabeça e olhou para Lucas. - É péssimo. Não me parece original, não tem sentimento, não é algo que faça as pessoas pensarem “Isso é tão bem escrito, queria ser como ele”, até quando te uso como inspiração não sinto como se fosse algo incrível, só mais um pedaço de papel com letras vazias, sentimentos rasos e mal escritos, e uma tentativa falha de ser um poeta. Você entende? — Se você me deixasse ler algo, eu talvez entenderia melhor… E como assim, me usa como inspiração? Miguel sentiu um frio correr por sua espinha, sem querer deixou um pequeno detalhe escorregar, mas já era tarde demais… — Última folha que eu joguei fora. Pode ler. — Tem certeza? - Perguntou Lucas com uma bola de papel na mão. — É… Não. Mas creio que seja o certo. Lucas então desamassou o papel e pôs-se a ler aquele pequeno conto:

“‘Eu não acredito em contos de fadas, mas, eu daria a minha vida, furaria meu dedo em uma agulha e adormeceria para sempre assim te teria correndo em minha direção e me salvando, pois só você, e apenas você, pode me salvar.’ — Você poderia inventar algo novo pro seu conto de fadas. — Hm? — Já que não acredita em contos de fadas, deveria criar o teu próprio, e usá-lo como referência, não o conto da bela adormecida. — Meu bem, estava a ler meus pensamentos? — Difícil não ler quando estes são tão altos e fazem tantos sons enquanto saem de sua boca murmurante. O escritor arfou. — Então, o que acha de um conto onde um grande escritor está em um grande dilema criativo e seu marido, que lê mentes, o ajuda nesse dilema lendo os pensamentos de todas as pessoas que conhece? — Ora, se o marido for tão belo quanto eu e o escritor tão brilhante quanto você, não vejo como poderia rejeitar essa história.”

Os olhos de Lucas estavam arregalados e o rosto de Miguel estava tão vermelho quanto um tomate, o silêncio foi quebrado de uma forma tão estranha… — Eu consigo ler mentes. — Que?!? - Miguel exclamou. - Essa foi a primeira coisa que passou pela sua cabeça depois de ler isso? — Mas eu realmente posso ler mentes. - Ele fez uma pose orgulhosa. - Eu infelizmente nunca pude te contar, mas agora que você previu não tem como eu esconder. — Então o que eu estou pensando agora? — Hm… - Lucas se aproximou e olhou profundamente em seus olhos que rapidamente desviaram o foco. - Está pensando em como foi tolo de deixar uma pequena frase escapar e agora está morrendo de vergonha e quer se enterrar vivo, não é? — Isso não é engraçado. — Eu acho. - Lucas sorriu. - Vem na sacada comigo. Miguel levantou relutante e foi até a sacada com Lucas. — Vou te provar que consigo ler mentes agora. — Pfft… - Miguel caiu na gargalhada enquanto o rapaz olhava sério para ele. - E como pretende fazer isso, Professor Xavier? — Apenas veja, Fera. - Ele apontou para um rapaz que atravessava a rua rapidamente. - Vê aquele homem de roupa social? — Mhm. - Miguel assentiu. — Ele está pensando em como está atrasado para pegar sua filha na escola novamente. Está correndo contra o tempo para não deixá-la sozinha por tanto tempo lá de novo, e quando estiverem juntos, como pedido de desculpas, irá pagar um sorvete para ela na volta para casa. — E você acha que eu vou acreditar nisso, Lucas? — Por que não senta e espera alguns minutos? E assim ele fez, puxou uma cadeira e se sentou ao lado de Lucas por alguns minutos, Miguel comentava algumas ideias de histórias que havia pensando e explicava detalhadamente cada parte que Lucas pedia. — É um bom romance, você deveria colocar em prática. — Você fala isso para todas as ideias que eu dou. — Pois todas as suas ideias são boas e válidas, escrita é arte, e arte é vida. - Lucas olhou para rua e um sorriso começou a nascer em seu rosto. - Bom, veja com seus próprios olhos, Miguel. — Não pode ser… O mesmo homem em roupa social agora carregava uma mochila com a estampa de Barbie e o segredo das fadas, e segurava a mão de uma criança que tomava alegremente um sorvete de morango. — Isso é mera coincidência, impossível você realmente ter lido a cabeça daquele cara. — Pronto para o próximo round, então? — Sempre pronto, Lucas. — Gosto desse seu espírito. - Os olhos de Lucas brilharam como o Sol do fim de tarde. - Essa mulher que está passando agora. Ela está triste. — Pelo quê? — Acabou de perder sua mãe para um câncer e não sabe o que fazer. Ela se sente perdida. — Como…? — E vê esse jovem atrás dela? Ele almeja ser um escritor, um escritor tão grande quanto Machado de Assis, Oscar Wilde, e é claro, Miguel Araújo. Ele está indo para a biblioteca ler alguns livros clássicos, assim como você costumava fazer. Miguel não se conteve e deixou algumas lágrimas escorrerem involuntariamente enquanto assistia a rua em que aquelas pessoas passavam e outras centenas também passariam. — Eu ainda não acredito, o que é isso tudo, Lucas? Eu não entendo… — Fico feliz que você ainda não acredita, pois eu não li nenhuma mente. Miguel olhou para Lucas incrédulo e ele sorria cínico para o amigo.

— Eu esperava que você fosse um pouco mais observador enquanto escritor, sabia? — O que quer dizer? - Miguel enxugou seu rosto. — O primeiro eu não esperava que você conseguisse perceber, mas todos os dias enquanto espero o ônibus para a faculdade, ele anda apressado e volta com sua filha da escola logo em seguida. O sorvete foi só um chute já que o colégio da menina é perto de uma sorveteria. — E os outros? — Ah, a mulher tinha um laço rosa na blusa, e além do semblante triste e olhos marejados, como o seu, ela segurava um envelope com a logo do Hospital da Mulher. E o menino eu acabei por inventar mesmo. — Eu… Eu não percebi. Estava completamente alheio. — O que eu quero te mostrar com isso, Miguel. - Ele segurou seu ombro. - É que há diversas formas de ver o mundo, diversas formas de pensar, e o mais importante, diversas pessoas. Pessoas que pensam diferente de você, que vivem diferente de você e que sentem diferente de você. Quando eu li sua pequena história, senti um gás subir pelo meu corpo, a história que você desprezou fez com que eu me sentisse um pouco mais vivo. — Lucas… — Eu preciso que você entenda agora, Miguel. Você não vai ser como esses grandes escritores, não… Você será melhor que eles, sabe porquê? Porque você é único, um poeta único, com uma visão de mundo única, visão essa que irá impactar tantas pessoas que farão elas pensarem: “Eu nunca serei como Miguel, esses versos são tão excepcionais, ninguém nunca sentirá o que eu sinto ao ler o que ele escreveu quando lerem o que eu escrevi”. Eu tenho orgulho do que você está se tornando, e me sinto honrado por ser uma inspiração para algo que você escreveu. — Eu não sei nem por onde começar. — Então comece por aqui. - Ele entregou a folha em que a história lida mais cedo estava escrita. - Adoraria ver a continuação da nossa história. — “Nossa”? - Miguel estava vermelho como um tomate. Novamente. — Posso não ser escritor, mas sei interpretar frases ditas sem querer. - Lucas sorriu. - Vamos para dentro, você vai virar um camarão se ficar envergonhado e no sol ao mesmo tempo.