Inexistir
Resolvi escrever sem pensar muito, mas notei que é impossível parar de pensar tanto quando não sabe como se sente por inteiro. Poder ser uma criatura inconsciente de sua própria existência e completamente alheio às decisões de qualquer outro ser que foi concebido com o desprazer da autoconsciência, aquele que não só existe, como também vive, que tenta prender sua respiração mas sabe que é um ato burro, você nunca vai conseguir morrer desse jeito.
Eu diria que o desejo de inexistir é mais recorrente que o desejo por sentir algo, sentir algo é momentâneo, existir, por mais que também momentâneo, é como se fosse pra sempre. E, por sinal, quem nos garante que nós não existimos para sempre? Somente existir depois de viver por tanto tempo é uma ideia assustadora. Ter todo o tempo do mundo para repassar todos seus anos vividos enquanto você existe, e por isso, morrer não é o suficiente e nunca vai ser.
Ter consciência, poder viver, para no ato seguinte estar fadado a uma existência, ser apenas uma ideia que urge pela possibilidade, de mais uma vez, poder ser capaz de viver, de cometer o erro que é sentir algo — ser intenso quando tudo que você tinha que ser era uma chama fraca, uma faísca, na verdade — de acreditar naquelas besteiras ditas no calor de um momento, que não passara disso, um momento. Esse, é um verdadeiro inferno. Querer tudo aquilo que você desejou nunca mais ter. E esse sim é um conceito assustador.